quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O passamento de Bizí

       Bizí era singela, independente e feliz.
       Ela trabalhava no comércio varejista, mas pra ganhar uma renda extra também vasculhava os lixos vizinhos a fim de encontrar algo de valor (quase sempre era bem sucedida nessa tarefa).
      Desde que veio ao mundo, a vida foi uma verdadeira batalha pra Bizí. Nascida num lixão, viveu lá por 5 anos com vários irmãos que tivera.
     Com 3 anos de idade, ela passou pela experiencia traumática de ficar seis dias sem comer absolutamente nada, isso marcou sua vida de modo que a cada vez que sentia só um pouco de fome, ela comia qualquer coisa que encontrasse e o lugar mais fácil para encontrar ''comida'', era o lixo.
      A mosça não chegou a completar trinta anos, tinha os olhos negros e sempre estava com vestimenta cor verde, mas não qualquer verde, era um verde metálico.
     Bizí sabia de muitas coisas mas o que ela não fazia ideia, era que seis dias sem comer não fora a pior experiencia de sua vida...
     Certo dia, calmo e ensolarado, a jovem resolveu dar os seus passeios cotidianos em casas de conhecidos. Ela chegava e ia embora sorrateiramente (e, apesar disso, sua presença era sempre notada). Bizí adorava pessoas, mas isso nunca foi muito recíproco...
      Naquele dia, ela entrou numa casa. E para seu azar, se deparou com uma pessoa que estava determinada a matá-la, com uma arma que atirava um veneno mortífero.
      Bizí só percebeu que estava perto da morte quando o veneno a tocou. E então,  num desespero inexplicável, ela correu. Se esquivou. E até voou.
     Até que, sem forças, caiu em cima da pia da cozinha.
     De barriga pra cima.
     Ela sentia muita dor e medo.
     Uma sensação horrível tomava conta de seu corpo.
     Sucessivamente colocava três palmos de língua pra fora da boca... Estava morrendo intoxicada.
     A sua língua era da cor dos olhos, que pareciam pedir socorro, se pudesse gritaria. Foram os segundos mais longos e dolorosos da vida de Bizí. Alguns dizem que o atirador, ao vê-la naquele estado, sentiu grande remorso e prometeu a si mesmo que nunca mais usaria sua arma de veneno.
     Bizí não teve velório ou enterro. Foi jogada no lixo. Bizí fazia um barulho cujo som se parecia com seu nome: bzzzz.
     Bizí era uma mosca-varejeira.